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Jornada dupla, salário pela metade

Jornada dupla, salário pela metade


O desafio da mulher brasileira no mercado de trabalho

Por Alessandra Algarin*

Nenhum direito adquirido pela mulher ao longo da história caiu do céu. Seja no Brasil ou no mundo todas as transformações positivas que impactaram nossas vidas de maneira efetiva vieram a fórceps, às custas de suor, lágrimas e muitas vezes sangue. Há mais de 10 anos, as mulheres brasileiras assistem atônitas à tramitação do Projeto de Lei Complementar 130/2011, que trata da igualdade salarial e prevê multa às empresas que pagarem salários diferentes para homens e mulheres que exerçam a mesma função. E em 2021, quando parecia que mais uma conquista importante seria comemorada, um jogo de empurra entre Legislativo e Executivo colocou a pauta na gaveta da geladeira. Depois de aprovado pelos senadores, o projeto não foi sancionado pelo presidente da República e voltou à Câmara, sob alegação de que as alterações realizadas no Senado teriam desvirtuado o conceito original e chegamos em 2022 sem perspectiva de solução. Os interesses políticos e corporativos mais uma vez foram colocados à frente do que nós mulheres buscamos como direito inalienável.

Segundo o IBGE, as brasileiras ganham 20,5% a menos que os homens. Para o Dieese esse número é ainda maior, 22%, e sobe para 38% quando a comparação é entre profissionais com ensino superior. Pesquisa do PNAD mostra que quando a mulher é negra a diferença de remuneração chega a 40%. Um absurdo, sem qualquer justificativa plausível.

Outro dado revelador: a mulher brasileira ainda tem dificuldade de ser alçada a postos de comando. De acordo com a análise da consultoria Bain & Company, baseada em perfis profissionais do LinkedIn, apenas 3% dos cargos de direção-executiva estão em mãos femininas.

E na hora de voltar pra casa, no final do expediente, as diferenças continuam. É a chamada jornada dupla. Enquanto os homens ocupam 10,3 horas semanais com trabalhos domésticos, as mulheres chegam a 21,8. Mais que o dobro do tempo. Infelizmente, em muitos lares, limpar a casa, cuidar das crianças, preparar as refeições e lavar as roupas, continua sendo um trabalho exclusiva ou majoritariamente feminino.

E qual a solução? É preciso ampliar a participação das mulheres no exercício público. Certamente, com mais representantes na Câmara dos Deputados, no Senado, e mesmo nas Assembleias Legislativas e nas Câmaras Municipais, haveria maior consciência e projetos que visam garantir direitos às mulheres não se arrastariam, de maneira injustificável, por mais de uma década. E essa representatividade deve ser acompanhada de parlamentares homens mais conscientes que tenham empatia e um olhar despido de preconceito para um tema tão relevante. Não queremos um Legislativo apenas de saias, mas queremos que as mulheres sejam de fato representadas, com equidade, como prevê a Constituição Brasileira.

Não podemos nos esquecer que, além do processo político, é preciso trabalhar pela construção de um novo modelo educacional, de tomada de consciência, que só se conquista com acesso à informação e pelo diálogo que deve estar presente nos lares, nas salas de aula, na mídia, na produção cultural. E o salário não é um mero detalhe. É direito do trabalhador e condição fundamental da dignidade humana na busca por igualdade entre homens e mulheres.

*Alessandra Algarin é advogada, Presidente do PODEMOS Mulher do Estado de São Paulo e atua há 25 anos com atividade política.