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A VONTADE E A DICA DO MÁRIO COVAS

A VONTADE E A DICA DO MÁRIO COVAS


Finalzinho de setembro de 2001, Lila Covas, ainda curtindo a sua dolorida saudade do Mario, que falecera em março daquele ano, liga pessoalmente a arraigados tucanos que costumavam frequentar o seu modesto e acolhedor apartamento de 110m2, primeiro andar, nas imediações da Marginal Pinheiros.

Era um seleto grupo de pessoas próximas ao Covas, e um outro que ela intimamente chamava de “Time dos Inhos”, pois apelidara com diminutivos carinhosos muitos dos seus integrantes: Bruninho, Tiãozinho, Edsinho, Padulinha, Vitinho, Faustinho, Frigerinho, Malufinho, Zuzinha e eu, Serginho. Lila convocava enfática: “você não pode faltar… convidei o Governador do Ceará, Tasso Jereissati e a sua mulher Renata para almoçar aqui em casa. Vamos externar a ele a VONTADE do Mario em tê-lo como candidato a presidente no ano que vem.”

Sim, Covas admirava muito o estilo de governar do Tasso, no Ceará: íntegro, arrojado, educado, gestão moderna, tecnológica e inovadora. E também preocupado com as distâncias sociais e imbuído de muita transparência. Imaginava que seria ele o candidato ideal para suceder ao Fernando Henrique.

O almoço foi leve, intimista, repleto de emoções. Para muitos era o retorno àquele lar quase comum, onde outrora se respirava aprendizado constante das boas práticas políticas que o próprio Covas nos ensinava.

Tasso chegou, com a mulher Renata. Imaginando ser reunião social, foi surpreendido com organizada reunião política. Simpático, porém inibido pela circunstância, não advogou em causa própria e, conhecedor dos meandros tucanos, declamou ser cedo ainda para dar envergadura à causa da sucessão ao Fernando Henrique.

Conversa vai, conversa vem, guaraná, réplicas e cafezinhos, tréplicas e mais café, memórias políticas, bolinhos de chuva, prognósticos empíricos e eis que, quase final do dia, com pastel de carne na mão, ele concorda em participar de um ato mais ajambrado, para analisar com maior amplitude a tese que os covistas propunham.

Lila, satisfeita com o resultado da sua ousadia em memória à VONTADE do falecido marido, sentencia: “Zuza (apelido santista do Covas) sempre fez as coisas às claras. Que o Tasso seja, portanto, lembrado para candidato, em evento público e não nos bastidores. Vamos fazer um ato no partido. Este grupo está encarregado de realizá-lo mês que vem…”

Boquiabertos e pasmos, aplaudimos. Afinal Lila nunca fora tão espaçosa assim; se ousou tanto é porque o assunto lhe tirava o sono.

Tasso sorriu, olhou para todos com os olhos marejados e acenou com a cabeça um discreto sim. Assunto encerrado!

Afastam-se os móveis daquela apertada sala para a clássica foto, que imaginávamos histórica (abaixo).

No final de outubro de 2001, como previra Lila, realizamos o evento.
A expectativa foi superada. Às pressas, dias antes do dia programado, pelejamos em busca de outro local. As confirmações de simpatizantes excediam a capacidade do modesto casarão da Rua Vergueiro, Comitê do meu irmão Paulo, onde também funcionava o Diretório Municipal do PSDB.

Vaquinha entre os organizadores e fomos ao sisudo Instituto de Engenharia, no Ibirapuera. Conseguimos alugar aquele tradicional e imponente auditório, não sem antes, para convencer a igualmente sisuda diretoria, apelar para o fato de que Mario Covas era engenheiro e militante naquele espaço. Preço negociado e a imposição de que deveriam ser usadas nas dependências do Instituto, sem fechamento do trânsito, sem carros de sonorização e sem rojões, pois ao lado estava o importante Hospital do Coração Dante Pazzanese. Negociação feita!

Presença maciça de tucanos, de São Paulo e do Brasil. Mais de 1.500 pessoas espremidas no auditório com capacidade para 400. Até o Ministro da Educação, Paulo Renato de Souza, fez questão de aparecer e falar. O assédio foi tanto que nova vaquinha foi necessária para pagar equipamento de transmissão e telões externos. E, óbvio, mais água e café para recepcionar os presentes.

Emoção novamente explodindo. A cada discurso um apelo ao Tasso para que assumisse a missão. E dá-lhe mais emocionadas lembranças do Mario Covas.

Tasso assume o microfone. Expectativa em todos os olhares. Calmo e paciente faz emotivo discurso, porém em estilo condicional. Até poderia, mas teria que conversar muito. Notava agregado ao evento o componente da qualidade da turba. Se esse era o espírito, perorou que muito próxima estaria a sua decisão.

Aplausos e mais aplausos.
Abraços e a quase sensação do “temos candidato!”

Mas o desejo não se concretizou em 2002, ano seguinte. A cúpula partidária, como cantado, nos bastidores, deliberou pelo nome do José Serra, dono de excepcional performance como Ministro da Saúde. Mas fez errática campanha, conjugando os verbos na primeira pessoa do singular…

…Lula ganhou!

Tasso ficou no Ceará, elegeu o seu sucessor e reapareceu garrido em Brasília como Senador da República.

Tempo passou, Tasso manteve a sua altivez por meio de excelentes e responsáveis ações no Senado Federal. Honrou cearenses e brasileiros.

Agora, 2022, duas décadas após, a foto patrocinada por Lila Covas reaviva nossa memória e nosso entusiasmo. Tasso é cogitado como vice da preparadíssima pré-candidata Simone Tebet - PMDB, fazendo deles uma sonhada via para reconsertar o Brasil.

E vamos à primorosa DICA do saudoso Mario Covas:

“Eleição com dois turnos permite que no primeiro você vote com o coração e a razão; se o seu candidato não se consagrar, no segundo turno seja pragmático e vote no menos pior. Sempre se encontra algo que os diferencie…”

Ô saudade danada das aulas práticas de boa política que Mário Covas nos brindava!

Fonte/Texto: By Sérgio Kobayashi

SP, 17/06/22

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